Como consolar alguém?

Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo.
O texto bíblico narra que “Elifaz..., Bildade..., e Zofar... combinaram ir juntamente condoer-se de Jó, e consolá-lo.
Estavam preocupados com as graves perdas que Jó havia sofrido (bens, propriedades, filhos), sabiam que ele estava em depressão, que não estava comendo e se lamentava o dia todo, vestido de saco e coberto de cinzas. Para consolá-lo lá se foram os seus amigos. Mas o que se pode ver depois de sete dias e sete noites de silêncio (Jó 2.12), é uma seqüência de repreensões a Jó, e um sem-fim de receitas de consolação. Era um interminável falar dos três amigos metidos a consoladores. Os três queriam explicar o que Deus tinha feito com Jó, queriam que ele se conformasse passivamente com a tragédia. Jó lhes disse: “Já ouvi tudo isto antes; em vez de me consolarem, vocês me atormentam. Será que estas palavras ocas não tem fim? Porque vocês não param de me provocar? (Jó 16:1-3, Bíblia na Linguagem de Hoje).
Muito embora houvesse neles a disposição de consolar, não eram consoladores porque se colocaram em um plano diferente daquele que sofria. Não se identificavam com ele na dor que tinha, não havia neles a solidariedade com o amigo sofredor, não conseguiam sentir na própria pele a dor pela qual passava o amigo. Não exerceram efetivamente consolação porque tinham somente um palavrório, um “receituário de fórmulas de consolação, uma coleção de explicações para os atos de Deus, uma interminável pregação justificando a ação divina. Às vezes em que Jó quis expressar seus sentimentos diante da perda de seus filhos e bens, foi repreendido pelos “consoladores”.
Aprendi isto com o que me aconteceu quando soube da morte de um garotinho de seis anos que havia falecido por afogamento. Ele quem estava trazendo toda a sua família para a igreja. A noticia me pôs em estado de choque e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: o que falar para os pais para consolá-los?
Fiquei bravo com Deus, perguntando a toda hora porque Deus faz coisas deste tipo. Podia ter levado qualquer outro, mas não a pessoa que estava sendo usada para a possível conversão de toda uma família. Ele decidiu levar justamente quem estava trazendo a família para a igreja. Passei a noite toda no velório pensando no que deveria dizer no sepultamento, visto que a família me pediu para oficiar a cerimônia fúnebre. A cada hora que passava, mais e mais eu me angustiava, porque não vinha nada a minha mente que pudesse dizer aos pais. Só sabia chorar com eles.
Chegada à hora da cerimônia fúnebre, eu estava vazio, sem um texto bíblico, sem um esboço ou uma idéia para dizer algo a família e aos amigos que ali estavam. Lembro-me de que entrei em uma sala da igreja e disse a Deus.
- Olha aqui, eu não estou entendendo mais nada. Primeiro o Senhor me tira esta criança de uma forma tão cruel. Depois, o Senhor me põe na fogueira de ter que celebrar esta cerimônia e agora não coloca uma única idéia, texto bíblico ou esboço para eu dizer algo. Eu vou sair daqui e se chegar a hora de iniciar a cerimônia e não tiver nada em mente, vou dizer pra todo mundo que não tenho condições de celebrar o funeral.
Saí dali e me aproximei da mãe. Havia uma fila de gente “apresentando as condolências” . Fiquei estarrecido como que ouvi: “Foi melhor assim”, “é a vontade de Deus”, “não precisa chorar”, “Deus não faz nada que não seja o melhor”, etc. O sangue foi subindo à minha cabeça. Percebi que iria perder a estribeira com aquela gente. Procurei afastar-me. Foi quando me veio à mente esta história dos amigos de Jó tentando consolar. Naquela hora percebi que a consolação não vem por meio daqueles que ficam explicando os atos de Deus, porque Deus não deu procuração a ninguém para ficar explicando seus atos.
Naquela hora, o que os pais menos queriam ouvir é explicações. O que eles queriam realmente saber é que outras pessoas estavam sentindo o mesmo que eles, que a perda daquele filho afetou outras pessoas, que aquele filho era amado por outras pessoas. Na hora do funeral preguei sobre os amigos de Jó como explicadores de Deus que nada mais estavam fazendo que multiplicar as dores de Jó.
Confesso que fiquei de “alma lavada”. Na saída, o pai da criança me segurou pelo braço e me disse: -Obrigado! Você disse o que eu estava sentindo. Mais que isto: percebi que você estava tão abalado quanto eu pela perda do meu filho.
Estou plenamente convencido de que não há verdadeira consolação enquanto não há disposição para escutar e sentir o que o sofredor tem a dizer, sem que o ouvinte se espante com o que escuta ou repreenda o que o sofredor diz. Impedir o desabafo da dor é aumentá-la, tal como o fizeram os “consoladores” de Jó. Muito do ministério de Consolação se faz dizendo: “Não chore”, “levante a cabeça”, “você precisa se animar”, “isto não é o fim”, “tem gente com problemas maiores do que o seu”, “ainda bem que foi só isto: podia ter sido pior”. Isto fizeram os consoladores de Jó, mas suas atitudes foram tomadas por Deus como pecado, pois, no final Deus os repreendeu e pediu-lhes um sacrifício (Jó 42.7,8)
A verdadeira consolação de Jó veio quando seus irmãos e irmãs (pessoas que estavam no mesmo nível, identificados com ele e a sua dor) condoeram-se com ele, ouviram suas queixas e lamentos e compartilharam seus bens com Jó, suprindo as necessidades que tinha naquele momento (Jó 42:11).
Livro: Opção pela Vida – O segredo da vitória sobre as perdas (págs. 145 a 147)
Autor: Pastor Marcos Inhauser
Escrito por Carla às 18h46
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